skipToMain

ADCL: “Fazemos um trabalho invisível, mas é reconfortante vermos sorrisos”

Há muito que as gentes de São Torcato se habituaram a tratar a associação com mais de 25 anos por “tu”. Sérgio Gonçalves preside-a desde 2020, ano “desgastante”, com trabalho “muitas vezes invisível”.

22 julho 2022 > 16:10

A ADCL desdobra-se em valências, intervém no terreno, dinamiza, promove a inclusão social, o envelhecimento ativo, mexe na vida das pessoas. Para o seu presidente, há um trabalho “muitas vezes invisível” que se revestiu de importância acrescida, nomeadamente durante a pandemia, quando assumiu o cargo.

 

A Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL) é uma máquina que labora o ano todo, mas tem na Feira da Terra um complemento ao trabalho junto de pessoas em contextos desfavoráveis e em privação material. Este é um resumo justo do trabalho da associação?

Sim, esta parte da Feira da Terra [que aconteceu entre 07 e 10 de julho] é a parte cultural e artística mais visível. Já leva 26 edições, tivemos aqui um interregno de duas. O núcleo duro dos expositores deve andar à volta dos 70, 75. A feira começa a ser trabalhada no final do ano anterior, mas esta semana é, de facto, a mais intensa. Após o fim da Romaria Grande, começamos logo a usar o terreiro de São Torcato. Envolve-se aqui muita coisa. Mas a associação também não pode fechar. Temos os serviços de atendimento social, que têm de estar permanentemente abertos. Estamos sempre disponíveis, porque a emergência social acontece a qualquer momento. Apesar de grande parte dos recursos estarem aqui alocados, a parte social continua a funcionar.

 

Até porque há muito trabalho feito no terreno, certo? Ou seja, a ADCL, para além desta mostra cultural e artesanal, que aproxima as pessoas, essa proximidade está patente no terreno?

Sim, há mesmo muito trabalho no terreno. Dou um exemplo: vamos supor que conhecemos uma família que temporariamente tenha perdido a possibilidade de ter a sua habitação. Ela pode recorrer a nós e, com a Segurança Social e com os nossos parceiros, tentamos arranjar uma solução. Pode não ser uma solução de hoje para amanhã, mas temos uma série de parceiros, e conseguimos que, pelo menos, não fique na rua. Conseguimos dar recursos financeiros para que a família consiga suportar esses dias até conseguir arranjar uma solução.

 

Esse trabalho consegue-se também devido à implantação que a ADCL tem no vale de São Torcato e noutras freguesias? Suponho que haja gente da instituição que faz este trabalho de campo há já muito tempo.

Existe, sim. Há pessoas que estão connosco quase desde o início, a nossa diretora-técnica está connosco há 25 anos. A equipa também conhece o terreno.

 

As pessoas já tratam a associação por “tu”? Há essa proximidade?

Sem dúvida. Já tratamos as pessoas por tu: é o José, é a dona Maria. Conhecemos as pessoas. Estamos sempre atentos. A população também se altera, se bem que aqui, no vale de São Torcato, não há muita rotatividade de população: é mais fixo e conseguimos conhecer as pessoas. Quando não conhecemos, há sempre alguém que conhece. O tecido associativo também se faz muito disso: vale-se disso. O grupo desportivo local, a Junta de Freguesia, a Irmandade de São Torcato: a partir destas parcerias conhecemos as pessoas ou conhecemos sempre alguém que conhece.

 

É um trabalho feito de redes, de contactos. Esta malha de parceiros permite conhecer melhor as dificuldades que assolam as famílias?

Isso sem dúvida. Nós não temos a capacidade de conhecer toda a população. Mas, a partir do centro social, dos voluntários, dos parceiros, conseguimos chegar às pessoas. E isso vê-se também no caso da feira: quando temos um problema há sempre alguém que consegue arranjar uma solução. Na área social o mesmo é feito, mas com mais recato. Não é um trabalho de tanta visibilidade, mas é um trabalho imenso, só que muitas vezes invisível. E consegue suportar muito. Eu próprio antes de entrar para a ADCL sabia que existem muitas pessoas com dificuldades, mas muitas vezes não está aos nossos olhos, está escondido, por detrás de alguma coisa, e é aí que esse trabalho de proximidade, de vizinhança que conhece e alerta para a situação, é importante.

 

A pandemia bate à porta e esse trabalho no terreno também se complica. O processo de chegar e ajudar foi mais complicado?

Foi. Nós não paramos. Foi desafiante, mas esgotante. Durante a pandemia os nossos serviços estiveram sempre em funcionamento. Aliás, nós temos o lar residencial, a Casa de Acolhimento Residencial (CAR), ainda com muitas pessoas. Na altura tínhamos seis, agora temos cinco, mas temos acordo com a Segurança Social para ter oito. Em setembro de 2020 tivemos uma situação complicada: a covid-19 conseguiu entrar na casa e toda a equipa ficou em isolamento. Mas a associação conseguiu dar apoio ao lar, nunca parou. Um dos grandes problemas era que era tudo muito virtual, à distância, por telefone. E isso tornava tudo mais difícil. Não conseguimos estar próximos.

 

E isso refletiu-se também em todos os projetos da ADCL, mesmo naqueles que têm na sua génese combater o isolamento social através da cultura, como o “Então Vamos”, de formação em teatro, ou o “Fazer Presente” – Teatro Participativo em Diálogo Intergeracional. Pode explicar um pouco qual o estado destes dois projetos?

O “Então Vamos” nasceu do Orçamento Participativo de 2013. O objetivo é fazer com que pessoas que não estão na idade ativa não fiquem em casa. Temos voluntários que vão a casa das pessoas para a as trazer para fora. Como teve sucesso, o município continuou a apoiar. O “Fazer Presente” é um pouco como o “Então Vamos”, mas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Envolve as freguesias da encosta da Penha – como Infantas e Calvos – ou da Comissão Social Inter-freguesias Sul Nascente – Serzedelo ou Guardizela. Estamos a tentar que os contactos se cruzem e bebam da experiência uns dos outros. Estão ambos a funcionar muito bem.

 

Como já referiu, a ADCL extravasa o vale e também está muito presente na cidade. Que valências se acrescentam?

Apesar da sede ser aqui em São Torcato, temos também o nosso centro de formação em Guimarães, o CAFAP - Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental, resumidamente um local em que fazemos a interligação entre famílias. Temos também o nosso lar, o CAR, que funciona na Avenida de Londres, onde neste momento temos cinco jovens encaminhados para nós. Também fomos selecionados pela Segurança Social (SS) para sermos entidade de coordenação de famílias para acolhimento. Ao invés de colocar as crianças e jovens em lares, institucionalizados, fazemos com que eles sejam acolhidos em famílias. É um trabalho desafiante, o de escolher uma família que tenha capacidade para colher jovens. Fazemos trabalho invisível, por vezes esgotante, mas é reconfortante quando vemos sorrisos dos utentes, e nos dizem ‘obrigado’.

 

 

As “Vozes” que contam

A Feira da Terra vinha há 25 anos a celebrar os costumes do mundo rural e, quando se preparava para a 26.ª edição, a pandemia bateu à porta. Mas dois anos depois e com "muitas saudades", São Torcato voltou a ser terreno fértil para a mostra cultural, gastronómica, agrícola e artesanal. Organizada pela Associação para o Desenvolvimento das Comunidades Locais (ADCL), a feira voltou ao terreiro.

O documentário "Vozes de São Torcato", um breve olhar sobre os alicerces de qualquer comunidade – que, para além dos seus monumentos e estruturas, são as suas pessoas – foi exibido várias vezes ao longo do evento. "Foi fruto de uma residência artística realizada no âmbito do Excentricidades, o objetivo não é um filme de promoção turística, mas sim de conhecer as tradições e as pessoas que identificam São Torcato", explica Sérgio Gonçalves.

Tópicos

Subscreva a newsletter Jornal de Guimarães

Fique a par de todas as novidades
Podcast Podcast
Episódio mais recente: Guimarães em Debate #83
Stop