Edição Impressa

Newsletter

Assinar Entrar

26 anos depois, trabalhadores da Dextra vão receber “uma ninharia”

O tribunal finalmente avança com a divisão de créditos aos trabalhadores da antiga empresa Dextra. A verba contabilizada é de 1,3 milhões de euros, mas só serão distribuídos 453 mil pelos operários.

Após mais de duas décadas, antigos funcionários da fábrica de malhas Dextra estão prestes a receber os créditos relativos à insolvência da empresa têxtil da freguesia de Briteiros Santo Estêvão, que veio a falir no ano de 1995. Uma história que mesmo a quem nela participa suscita dúvidas e confusão, com um enredo e um processo de insolvência conturbados e demorados, a que só agora o Juízo de Comércio de Guimarães deu conclusão, com o rateio dos créditos.

Concluída a contabilização de créditos, o prazo para reclamação decorre até 5 de maio. O administrador de insolvência propõe o prazo de 10 dias, caso não existam reclamações, para pagar a todos os lesados. Em caso de ocorrência de reclamações, o processo pode voltar a adiar a data para o pagamento dos direitos dos trabalhadores.

Ao Jornal de Guimarães, Maria Rosa, antiga operária e membro do sindicato têxtil, confessa o desejo de, após 26 anos, receber o dinheiro que lhe é devido, ainda que seja uma “ninharia”.  “Estou desejosa, depois de tantos anos. É uma grande injustiça porque trabalhei 17 anos pela empresa e tinha direito a sete mil e tal euros e só vou receber 1900 euros. Há quem vá receber 10 mil, 14 mil e se o dinheiro era para ser repartido, não está justo. Justo era dividir tudo por igual. E eu gostava de saber onde está o resto do dinheiro. A fábrica foi vendida pelo tal milhão e nós gostávamos de saber para onde foi todo o dinheiro. Se não pagam à segurança social, se não pagam às finanças, gostava de saber para onde vai o resto do dinheiro. Pessoas que trabalharam menos anos do que eu vão receber muito mais”, desabafa.

 

“Há qualquer coisa que falha aqui”, diz antigo funcionário

Tal como Maria Rosa refere, o tribunal contabilizou cerca de 1,3 milhões de euros em créditos devidos aos trabalhadores, sendo que, no geral, os lesados vão apenas receber 453 mil euros. A justificação está no facto da verba que resultou da liquidação de todos os ativos da Dextra, onde se incluem os 550 mil euros do edifício onde funcionava a fábrica, não ser suficiente para pagar a todos os que reclamaram créditos.

Manuel Mafra já não estava empregado na Dextra quando tudo se sucedeu, mas depois de vários anos a trabalhar naquele local, ainda sente curiosidade em tentar perceber, tal como muitos, que voltas se deram a este caso.

“Há qualquer coisa que falha aqui e levantam-se algumas questões, até porque nem todos os dados foram bem guardados. As pessoas que não se associaram ao sindicato têm direitos? Não deram o nome e saíram para não ter problemas. Para onde vai o dinheiro dessas pessoas que lá trabalharam e não o recebem? Tenho o caso da minha cunhada que não deu o nome. Quem me diz que haverá pessoas que não trabalharam lá e vão receber esse dinheiro? Há coisas que não batem certo e quem lá trabalhou 30 anos não sai beneficiado. Vão receber muito pouco. As pessoas já estão por tudo e dizem que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, partilha o antigo operário.

 

Vala, pneus em chamas e polícia de intervenção

A Dextra fechou em maio de 1995 e deixou salários em atraso aos 170 trabalhadores. Deitam-se culpas à tensa greve organizada pelo sindicato, com o intuito de fechar as portas da empresa.  Durante 10 dias, os funcionários boicotaram a indústria.

Abriu-se uma vala em frente ao portão para os carros não passarem, fizeram-se fogueiras com pneus a arder para ninguém entrar na empresa, rodearam a área com mato e até forças de intervenção foram chamadas ao local para acalmar o frenesim. Manuel Mafra acredita que “os funcionários foram empurrados pelo sindicato, porque existia pouco conhecimento da parte deles para planear o que se fez. Ainda hoje não sabemos os interesses que estão por trás”.

A corroborar com este pensamento, Maria Rosa relembra: “Eles não nos deviam nada. Havia pouco trabalho e havia um senhor que era o porteiro, o senhor Peixoto, que quando deixou de se relacionar com os patrões, virou a fábrica ao contrário. Ele chamou-nos e convenceu-nos, ao sindicato, a avançar com a greve. Não ganhámos nada, só anos à espera. O objetivo era fechar a empresa. Mas depois cerca de 30 trabalhadores não pararam de trabalhar. Era contra eles que estávamos revoltados naquela greve. Se hoje a fábrica continuasse a laborar, eu estava lá a trabalhar. Eu gostava muito de trabalhar ali. O senhor Peixoto é que nos deu a volta à cabeça. Depois perdemos salário e trabalho”, aponta.

Além disso, outros contratempos se deram para com o pagamento no âmbito do processo de insolvência, como foi o caso da morte do presidente da Comissão de Credores, ou a baixa médica da responsável da Segurança Social no processo, ou até mesmo o julgamento dos patrões da empresa, que acabaram absolvidos do crime de insolvência dolosa.

Artigos relacionados

Semana Europeia da Mobilidade com corte de trânsito e transportes gratuitos

Semana Europeia da Mobilidade com corte de trânsito e transportes gratuitos

Setembro 16, 2026

Circular nos veículos da Guimabus e da Ave Mobilidade vai ser gratuito entre sexta e segunda-feira. Cortes de trânsito permitem série de eventos na rua de Santo António e no Toural.

Taipas Termal encerra época balnear com entrada gratuita nas piscinas

Taipas Termal encerra época balnear com entrada gratuita nas piscinas

Setembro 16, 2026

Também com acesso livre ao parque de campismo, a instituição encerra a temporada balnear e cultural de 2026 entre a próxima sexta-feira e sábado com animação, ações de sensibilização e concertos.