“G” de Guimarães e de…Genocídio?

O Genocídio levado a cabo por Israel deveria, por si só, ser motivo suficiente para condenar qualquer tipo de cooperação com este Estado.

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Francisca Sousa

No decorrer desta semana, uma notícia abalou Guimarães: o presidente da Câmara, Ricardo Araújo, recebeu o Embaixador de Israel em Portugal. Disfarçada sob a premissa da cooperação para desenvolvimento económico e tecnológico do município, esta visita traz consigo o contacto próximo com um Estado que tem levado a cabo, nas últimas oito décadas, um Genocídio. A cooperação com Israel traz, ainda, outro tipo de questões, que serão debatidas no presente artigo, porém, antes de mais, um pequeno contexto.

Antes de mais, importa clarificar que praticar a religião judaica não é o mesmo do que ser israelita e do que defender o Genocídio. Durante a Segunda Guerra Mundial as pessoas que praticavam a religião judaica na Europa foram alvo de um genocídio. A morte de milhões deixou uma forte marca na História e na memória coletiva, porém importa salientar que a maioria das pessoas que passou a habitar o denominado Estado de Israel não sofreu com o Holocausto – muitos seriam pessoas que, ainda antes do genocídio, teriam imigrado para outros locais, como os Estados Unidos. No ano de 1948 foi fundado o Estado de Israel, no local onde já habitava o povo palestino.

Seguem-se décadas de conflito, de mortes e de ocupação territorial por parte de Israel, que culminam numa data que todos recordamos, 7 de outubro de 2023. Aqui, importa fazer outra distinção: os ataques a civis israelitas foram levados a cabo pelo Hamas, um grupo radical que não representa a Palestina e o seu povo. Este acontecimento representou o intensificar dos ataques levados a cabo por Israel ao povo palestino. Vamos olhar para os números: no dia 7 de outubro de 2023, o Hamas sequestrou dezenas de pessoas, tendo, desde este dia, morrido cerca de 1200 pessoas; por outro lado, o escalar do conflito custou a vida de mais de 73 000 palestinos, não contando com o número de mortos dos 78 anos que antecederam. Os israelitas, um Estado judeu que tem como principal argumento de formação e de existência o Genocídio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, executa, então, práticas semelhantes sobre o povo palestino.

O Genocídio levado a cabo por Israel deveria, por si só, ser motivo suficiente para condenar qualquer tipo de cooperação com este Estado. No entanto, e considerando que vivemos num sistema em que a produção de lucro é considerada mais importante do que, muitas vezes, a vida humana, existem outros factos a constatar acerca da visita do Embaixador israelita. Atualmente, muitos setores de diversos Estados europeus vivem dependentes de Israel. É o exemplo de Espanha, que vê um setor fulcral para a sobrevivência, o setor da agricultura, dependente do potássio utilizado para fertilizantes. No caso de Portugal, esta dependência espelha-se, por exemplo, no setor eletrónico, com a importação de 32% dos componentes eletrónicos de Israel. A visita do representante de Israel a Guimarães acentua esta dependência, pois teve como um dos eixos debatidos a instalação de uma fábrica de dispositivos médicos israelitas no AvePark. Esta cooperação não é um reconhecimento do “talento qualificado, conhecimento científico, capacidade industrial e um ecossistema de inovação em crescimento”, como é assinalado pelo Município de Guimarães, mas sim coloca o nosso sistema de saúde e o tratamento dos nossos doentes dependente de vulnerabilidades não só operacionais, como geopolíticas e económicas.

O caminho a seguir por Portugal e pelos diferentes Estados europeus que vivem dependentes de Israel em setores fulcrais é o boicote. Atualmente, é bem conhecido o Genocídio levado a cabo por Israel em Gaza, tendo-se propagado uma onda de ações solidárias para com as vítimas. A melhor forma de ser solidário é parar, de imediato, a cooperação. Quanto ao ocorrido no Município de Guimarães, a questão é simples. Às críticas que foi recebendo acerca da visita do Embaixador de Israel em Portugal, Ricardo Araújo respondeu com o que seria o mais expectável: Guimarães mantém relações com os Estados com que Portugal também mantém laços. Este argumento torna-se mais curioso considerando que, no mesmo dia da resposta do Presidente da Câmara de Guimarães, Paulo Rangel, Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, recebeu a Ministra dos Negócios Estrangeiros e dos Expatriados da Palestina, tendo reforçado a cooperação bilateral. Na lógica de Ricardo Araújo, Guimarães deverá receber em breve o Embaixador da Rússia em Portugal – um Estado que, apesar de ter invadido um país soberano e matar milhares diariamente, mantém relações diplomáticas com Portugal. Para os vimaranenses, deixo a reflexão acerca do Município que queremos, um Município que respeita os Direitos Humanos e o Direito Internacional, ou um Município que apoia o Genocídio?

 

O seu nome estará sempre ligado à descoberta e estudo de uma peça arqueológica absolutamente extraordinária: o Carro Votivo de Vilela.

O momento actual é, pois, momento benéfico que devemos aproveitar, lição que devemos rentabilizar na sua aprendizagem e prática implicada e desafio que urge enfrentar e superar.